A CASA ONDE A MÚSICA AINDA EXISTE
Conto original da performance
Ninguém sabe exatamente quando o mundo acabou. Não houve explosão. Não houve um dia marcado.
O fim começou pequeno demais para que alguém percebesse. Primeiro nas mãos.
As pontas dos dedos começaram a se desfazer em pequenas partículas de luz. Poeira colorida suspensa no ar. Pixels.
Milhões de pessoas desapareceram assim. E então reapareceram. Chamaram aquilo de Transferência.
Quando acordei naquele outro mundo ainda havia céu. Ainda havia vento. Ainda havia água.
Mas algo estava profundamente errado. Sobre um rio gigantesco patrulhavam navios cobertos de luzes violentas. Fortes de concreto vigiavam tudo.
E a música nunca parava.
Uma batida eletrônica pesada pulsava sem descanso. Uma voz artificial cantava em tons perfeitos demais para serem humanos. Era música criada por inteligência artificial. E era a única música permitida.
Nos navios, multidões dançavam. Mas não era dança viva. Os corpos se moviam como máquinas. Repetição. Tensão. Movimentos duros. Uma coreografia sem alma. Como se a própria música tivesse sequestrado os corpos.
A raiva tecnológica imperava naquele mundo. Luz demais. Barulho demais. Movimento demais. E nenhum espaço para sentir. Nenhum espaço para errar. Nenhum espaço para silêncio.
Disseram que a música humana era perigosa, que fazia as pessoas lembrarem demais. E lembrar ou pensar naqueles dias era um problema.
Então proibiram os discos. Proibiram os instrumentos. Proibiram as vozes.
Mas memória não desaparece assim. Ela se esconde. Nos cantos. Nas pessoas. Nos pequenos lugares que os impérios não conseguem enxergar.
Foi nesse meio que eu conheci a pessoa que fugia comigo. Não trocamos nomes. Nomes criavam vínculos. Vínculos criavam alvos.
Então ficamos apenas nós duas. Ela. Eu, um gatinho malhado, preto e cinza, que apareceu um dia e decidiu ficar. E um cachorro caramelo magro que parecia feito de fiapos de sol, chamei de Fiapo de Manga.
Foi ele que latiu primeiro naquela madrugada. As sirenes vieram logo depois. A Polícia Cultural tinha descoberto um esconderijo.
Discos antigos. Música humana. Gente foi levada. Então corremos.
Viramos uma esquina. Depois outra. E então o chão mudou. Meu pé bateu numa pedra. Paralelepípedo.
Pedras quadradas antigas, gastas por anos e anos de passos. Eu quase tropecei porque não lembrava mais como era pisar num chão de verdade.
As casas eram baixas. Coloridas. Havia plantas nas janelas. E gente. Gente de verdade.
O vento trouxe o cheiro do mar. Então ouvimos. O chiado. Aquele som pequeno que um disco faz quando a agulha encontra o vinil. E então veio o violão. Um acorde simples. Quente. Imperfeito. Humano.
Seguimos o som até uma vendinha pequena. Dentro havia prateleiras de madeira. Sacos de arroz. Garrafas. Latas. E num canto uma vitrola. Girando lentamente. Olhei para ela. Os olhos dela estavam cheios de lágrimas.
— Você tá ouvindo isso? — Ela assentiu. E então eu comecei a chorar. — Eu tinha esquecido… — falei. — Eu tinha esquecido o quanto isso toca a gente.
Foi quando as sirenes começaram novamente. Mais perto. Antes que o pânico tomasse conta da vendinha, uma porta se abriu no fundo.
— Entra logo, minhas filhas.
A cozinha estava quente. E cheirava a feijão. A mulher que mexia a colher era enorme. Não apenas de altura, mas daquele tipo de presença que ocupa o espaço inteiro com calma. Quando ela abriu os braços, não perguntou quem éramos. Apenas nos puxou para perto. E tinha cheiro de lar.
O cachorro caramelo deitou perto da porta. O gatinho malhado se enroscou numa cadeira. Ela colocou arroz em pratos esmaltados. Depois o feijão. Depois a farinha.
Lá fora as sirenes gritavam. Os navios continuavam despejando sua música artificial sobre o rio. Mas dentro daquela cozinha havia silêncio. Havia comida. Havia gente.
— Eles pensam que se destruírem os discos, a memória acaba — ela disse. Deu uma risada baixa. — Mas memória mora nas pessoas.
Ela mexeu o feijão mais uma vez. — Eles acham que venceram.
Olhou para a vitrola tocando na sala. — Mas enquanto isso existir… ninguém venceu nada.
Eu ouvi a música. Senti o cheiro do feijão. Senti o vento do mar entrando pela janela. E percebi algo que os fortes, os navios e os algoritmos nunca tinham entendido.
Humanidade não vive nas máquinas. Ela vive nas casas. Nas cozinhas. Nas ruas de pedra. Nas pessoas que abrem a porta para quem chega correndo.
E naquele momento eu soube de uma coisa. O mundo não tinha acabado. Ele só tinha se escondido.
E enquanto existir uma casa onde a música ainda toca… uma panela de feijão no fogo… um cachorro caramelo dormindo na porta… um gato malhado enroscado numa cadeira… e gente disposta a proteger gente.
Nenhum império consegue vencer de verdade. Nem mesmo depois do fim do mundo.