ENTROPIA
o movimento se organiza na cena
Entropia é um projeto em construção — um estudo em processo que investiga o que ainda é humano quando os sistemas tentam apagar tudo que é sensível, imperfeito e vivo.
Este trabalho nasce de um sonho. Um sonho em que o mundo não acabava de forma abrupta, mas se dissolvia lentamente, quase imperceptível. Corpos se desfaziam em partículas, em pixels. A realidade era atravessada por uma nova ordem: sistemas automatizados, inteligência artificial, controle e repetição. A arte permanecia, mas esvaziada. A dança existia, mas sem vida. O movimento seguia, mas sem escolha.
Esse imaginário não surge isolado.
Ele se conecta a um sentimento que se intensificou a partir da pandemia, quando, pessoalmente, experimentei um afastamento do real, do natural e das relações humanas mais sensíveis. Desde então, percebo um movimento crescente em direção a sistemas cada vez mais mediadores tecnológicos, acelerados, automatizados que, ao mesmo tempo em que organizam a vida, também distanciam o corpo da experiência.
Nesse sentido, este trabalho dialoga com universos distópicos contemporâneos como Silo e Fallout (séries que retratam futuros distópicos), onde a sobrevivência humana acontece dentro de estruturas controladas, subterrâneas ou artificiais, que limitam a experiência do mundo e do corpo.
Mas também dialoga com movimentos de retorno.
Ao assistir o filme Sonhos de Trem (2025) fui atravessada pela forma como a imagem se constrói a partir de elementos naturais — luz do sol, fogo, iluminação de velas, sombras orgânicas — e pela maneira como isso reconecta o olhar com o tempo, com o corpo e com a presença.
Essa mesma busca aparece na minha relação com a fotografia analógica, um espaço onde o tempo desacelera, onde o erro faz parte do processo e onde a imagem não é imediata, mas construída.
Este projeto nasce, portanto, dessa tensão:
entre o artificial e o orgânico,
entre o controle e a experiência,
entre o sistema e o corpo.
CONCEITO
O ponto de partida é o corpo em estado de máquina.
Movimentos repetitivos, precisos, tensionados. Um corpo que executa, mas não sente. Um corpo que responde a um comando externo, sem espaço para erro, pausa ou escuta. Um corpo que opera dentro de uma lógica de baixa variação, onde tudo tende à padronização.
Nesse contexto, o conceito de entropia surge como eixo central da pesquisa.
Na física, a entropia se relaciona à multiplicidade de estados possíveis de um sistema. Aqui, ela é entendida como a emergência de possibilidades dentro de estruturas rígidas como aquilo que escapa, que varia, que reorganiza.
A dança é pensada como um sistema entrópico.
Não como caos aleatório, mas como um processo contínuo de reorganização. O movimento não parte de uma forma fixa, mas emerge da relação entre corpo, ambiente, som e tempo. Um corpo que negocia, falha, adapta e insiste.
"Para mim, esse conceito fez sentido desde a primeira vez que o ouvi. Sempre me organizei em meio ao caos e encontrei forma onde outros viam dispersão, encontrei caminho onde parecia não haver estrutura. A entropia não é o colapso. É o modo como algumas coisas e algumas pessoas existem. Em constante reorganização. Sempre em processo."
— Marilha Rocha
SOBRE A PERFORMANCE
A investigação se desenvolve na fricção entre dois estados:
o corpo-máquina
automatizado, repetitivo, controlado
o corpo-vivo
sensível, instável, em constante reorganização
Essa transição não acontece de forma linear, mas através de falhas.
Pequenos desvios.
Ruídos.
Interferências.
O erro passa a ser entendido como abertura.
A partir dele, surgem outras possibilidades de movimento, outras temporalidades e outras formas de presença.
O pole é utilizado como elemento central da pesquisa, atuando como estrutura simbólica e física. Inicialmente, ele aparece como eixo de controle — um sistema ao qual o corpo se submete. Ao longo da performance, essa relação se transforma: o pole deixa de ser uma estrutura rígida e passa a ser um espaço de relação, negociação e fluxo.
Essa abordagem dialoga com a obra Encruzilhado, de Renan Martins, onde múltiplos corpos coexistem em estados de tensão, atravessados por diferentes direções e forças. A ideia de encruzilhada como lugar de encontro, conflito e escolha ressoa aqui na construção de um corpo que carrega em si múltiplas possibilidades e caminhos.
Trilha Sonora
A trilha sonora estrutura a transformação da cena.
No início, uma música criada por inteligência artificial toca, enquanto a artista narra um trecho do conto. Em seguida a música Renascer, de Xênia França, entra como ponto de virada. Tocada a partir de um disco em vitrola, ela introduz uma nova qualidade de escuta e presença.
Sua sonoridade e sua letra evocam retorno, reconexão, atravessamento, erro e recomeço — abrindo espaço para um corpo que volta a sentir, a errar e a existir.
01. Inteligência Artificial
[Música gerada por IA]
02. Vitrola (Disco)
Renascer — Xênia França
Reconexão
A performance se organiza em
três momentos:
I. Sistema
Corpo-máquina. Repetição, precisão, controle. Movimento condicionado por um ambiente tecnológico.
II. Falha
Ruídos, desvios, instabilidade. O corpo começa a escapar da lógica imposta.
III. Reorganização
Emergência de um corpo vivo. Movimento não controlado, mas presente. Um corpo que se organiza no próprio ato de existir.

Voltar às raízes não é nostalgia. É reafirmação. É lembrar que a essência do ser humano não cabe em nenhum algoritmo — ela vive na memória do corpo, no cheiro da comida, na imperfeição de uma nota cantada fora do estúdio.
A estampa que Marilha carrega no corpo durante a performance foi inspirada em obra da artista brasileira Luiza Santiago (@_luartes_). O filtro de barro, a fruta, a casa, o mar — são símbolos de pertencimento, de origem, de tudo que os impérios tentam apagar e que insiste em existir.






Primeira
Apresentação
Espaço Cultural Quilombaque · [Perus, São Paulo]




Espaços como o espaço cultural Quilombaque, onde a artista escolhe como primeiro local para fazer a apresentação da perfomance, são a prova viva de que resistência tem endereço.
Num estado que sistematicamente abandona a cultura periférica, cortando editais, esvaziando equipamentos culturais, invisibilizando artistas que não cabem no circuito oficial, cada sarau é um ato de desobediência. Não é exagero: o governo de São Paulo tem desmontado políticas culturais que sustentavam a produção artística nas periferias, no interior e em toda a diversidade do estado. O que está em jogo não é só verba. É a narrativa sobre quem tem direito de fazer arte, de ocupar palco, de ser visto.
A periferia sempre soube se organizar no caos. Sempre encontrou forma onde o centro via ausência. Isso também é entropia, a capacidade de se reorganizar quando o sistema tenta te dissolver.
Enquanto houver um sarau, uma vitrola, um corpo que dança — nenhum sistema venceu de verdade.
Este projeto se apresenta como um estudo em processo.
Mais do que uma obra finalizada, trata-se de uma investigação contínua sobre corpo, tecnologia e movimento e sobre a experiência de existir em um mundo cada vez mais mediado por sistemas.
Se, por um lado, esses sistemas organizam, controlam e sustentam a vida, por outro, afastam o corpo da experiência sensível.
Neste trabalho, a resistência aparece no corpo.
Na sua capacidade de falhar.
De variar.
De desacelerar.
De sentir.
Talvez, nesse contexto, a entropia não seja o colapso. Mas a possibilidade de retorno.
Retorno ao erro.
Ao improviso.
À imperfeição.
À matéria.
Ao tempo.
Àquilo que ainda é humano.
Há um conto que habita este projeto. Ele é lido em voz durante a performance.
Leia "A casa onde a música ainda existe"