ENTROPIA

ENTROPIA

o movimento se organiza na cena

Projeto de CriaçãoDança Contemporânea & PolePor Marilha Rocha
@entropiaemcena
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Entropia é um projeto em construção — um estudo em processo que investiga o que ainda é humano quando os sistemas tentam apagar tudo que é sensível, imperfeito e vivo.

Este trabalho nasce de um sonho. Um sonho em que o mundo não acabava de forma abrupta, mas se dissolvia lentamente, quase imperceptível. Corpos se desfaziam em partículas, em pixels. A realidade era atravessada por uma nova ordem: sistemas automatizados, inteligência artificial, controle e repetição. A arte permanecia, mas esvaziada. A dança existia, mas sem vida. O movimento seguia, mas sem escolha.

Esse imaginário não surge isolado.

Ele se conecta a um sentimento que se intensificou a partir da pandemia, quando, pessoalmente, experimentei um afastamento do real, do natural e das relações humanas mais sensíveis. Desde então, percebo um movimento crescente em direção a sistemas cada vez mais mediadores tecnológicos, acelerados, automatizados que, ao mesmo tempo em que organizam a vida, também distanciam o corpo da experiência.

Nesse sentido, este trabalho dialoga com universos distópicos contemporâneos como Silo e Fallout (séries que retratam futuros distópicos), onde a sobrevivência humana acontece dentro de estruturas controladas, subterrâneas ou artificiais, que limitam a experiência do mundo e do corpo.

Mas também dialoga com movimentos de retorno.

Ao assistir o filme Sonhos de Trem (2025) fui atravessada pela forma como a imagem se constrói a partir de elementos naturais — luz do sol, fogo, iluminação de velas, sombras orgânicas — e pela maneira como isso reconecta o olhar com o tempo, com o corpo e com a presença.

Essa mesma busca aparece na minha relação com a fotografia analógica, um espaço onde o tempo desacelera, onde o erro faz parte do processo e onde a imagem não é imediata, mas construída.

Este projeto nasce, portanto, dessa tensão:

entre o artificial e o orgânico,

entre o controle e a experiência,

entre o sistema e o corpo.

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CONCEITO

O ponto de partida é o corpo em estado de máquina.

Movimentos repetitivos, precisos, tensionados. Um corpo que executa, mas não sente. Um corpo que responde a um comando externo, sem espaço para erro, pausa ou escuta. Um corpo que opera dentro de uma lógica de baixa variação, onde tudo tende à padronização.

Nesse contexto, o conceito de entropia surge como eixo central da pesquisa.

Na física, a entropia se relaciona à multiplicidade de estados possíveis de um sistema. Aqui, ela é entendida como a emergência de possibilidades dentro de estruturas rígidas como aquilo que escapa, que varia, que reorganiza.

A dança é pensada como um sistema entrópico.

Não como caos aleatório, mas como um processo contínuo de reorganização. O movimento não parte de uma forma fixa, mas emerge da relação entre corpo, ambiente, som e tempo. Um corpo que negocia, falha, adapta e insiste.

"Para mim, esse conceito fez sentido desde a primeira vez que o ouvi. Sempre me organizei em meio ao caos e encontrei forma onde outros viam dispersão, encontrei caminho onde parecia não haver estrutura. A entropia não é o colapso. É o modo como algumas coisas e algumas pessoas existem. Em constante reorganização. Sempre em processo."

Marilha Rocha

SOBRE A PERFORMANCE

A investigação se desenvolve na fricção entre dois estados:

o corpo-máquina

automatizado, repetitivo, controlado

o corpo-vivo

sensível, instável, em constante reorganização

Essa transição não acontece de forma linear, mas através de falhas.

Pequenos desvios.

Ruídos.

Interferências.

O erro passa a ser entendido como abertura.

A partir dele, surgem outras possibilidades de movimento, outras temporalidades e outras formas de presença.

O pole é utilizado como elemento central da pesquisa, atuando como estrutura simbólica e física. Inicialmente, ele aparece como eixo de controle — um sistema ao qual o corpo se submete. Ao longo da performance, essa relação se transforma: o pole deixa de ser uma estrutura rígida e passa a ser um espaço de relação, negociação e fluxo.

Essa abordagem dialoga com a obra Encruzilhado, de Renan Martins, onde múltiplos corpos coexistem em estados de tensão, atravessados por diferentes direções e forças. A ideia de encruzilhada como lugar de encontro, conflito e escolha ressoa aqui na construção de um corpo que carrega em si múltiplas possibilidades e caminhos.

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Trilha Sonora

A trilha sonora estrutura a transformação da cena.

No início, uma música criada por inteligência artificial toca, enquanto a artista narra um trecho do conto. Em seguida a música Renascer, de Xênia França, entra como ponto de virada. Tocada a partir de um disco em vitrola, ela introduz uma nova qualidade de escuta e presença.

Sua sonoridade e sua letra evocam retorno, reconexão, atravessamento, erro e recomeço — abrindo espaço para um corpo que volta a sentir, a errar e a existir.

01. Inteligência Artificial

[Música gerada por IA]

Corpo-Máquina

02. Vitrola (Disco)

Renascer — Xênia França

Virada
Reconexão

A performance se organiza em
três momentos:

I. Sistema

Corpo-máquina. Repetição, precisão, controle. Movimento condicionado por um ambiente tecnológico.

II. Falha

Ruídos, desvios, instabilidade. O corpo começa a escapar da lógica imposta.

III. Reorganização

Emergência de um corpo vivo. Movimento não controlado, mas presente. Um corpo que se organiza no próprio ato de existir.

Raiz
Estampa: obra de Luiza Santiago — @_luartes_

Voltar às raízes não é nostalgia. É reafirmação. É lembrar que a essência do ser humano não cabe em nenhum algoritmo — ela vive na memória do corpo, no cheiro da comida, na imperfeição de uma nota cantada fora do estúdio.

A estampa que Marilha carrega no corpo durante a performance foi inspirada em obra da artista brasileira Luiza Santiago (@_luartes_). O filtro de barro, a fruta, a casa, o mar — são símbolos de pertencimento, de origem, de tudo que os impérios tentam apagar e que insiste em existir.

Olho
Fruta
Planta
Casa
Casa
Filtro de Barro
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Primeira
Apresentação

Espaço Cultural Quilombaque · [Perus, São Paulo]

Apresentação
Apresentação
Apresentação
Apresentação

Espaços como o espaço cultural Quilombaque, onde a artista escolhe como primeiro local para fazer a apresentação da perfomance, são a prova viva de que resistência tem endereço.

Num estado que sistematicamente abandona a cultura periférica, cortando editais, esvaziando equipamentos culturais, invisibilizando artistas que não cabem no circuito oficial, cada sarau é um ato de desobediência. Não é exagero: o governo de São Paulo tem desmontado políticas culturais que sustentavam a produção artística nas periferias, no interior e em toda a diversidade do estado. O que está em jogo não é só verba. É a narrativa sobre quem tem direito de fazer arte, de ocupar palco, de ser visto.

A periferia sempre soube se organizar no caos. Sempre encontrou forma onde o centro via ausência. Isso também é entropia, a capacidade de se reorganizar quando o sistema tenta te dissolver.

Enquanto houver um sarau, uma vitrola, um corpo que dança — nenhum sistema venceu de verdade.

Este projeto se apresenta como um estudo em processo.

Mais do que uma obra finalizada, trata-se de uma investigação contínua sobre corpo, tecnologia e movimento e sobre a experiência de existir em um mundo cada vez mais mediado por sistemas.

Se, por um lado, esses sistemas organizam, controlam e sustentam a vida, por outro, afastam o corpo da experiência sensível.

Neste trabalho, a resistência aparece no corpo.

Na sua capacidade de falhar.

De variar.

De desacelerar.

De sentir.

Talvez, nesse contexto, a entropia não seja o colapso. Mas a possibilidade de retorno.

Retorno ao erro.

Ao improviso.

À imperfeição.

À matéria.

Ao tempo.

Àquilo que ainda é humano.

Há um conto que habita este projeto. Ele é lido em voz durante a performance.

Leia "A casa onde a música ainda existe"